Saiba que alterações acontecem no cérebro de agressores de mulheres; VÍDEO
13/03/2026
(Foto: Reprodução) Neurocientista Fernando Rossi explica alterações cerebrais em agressores
Mecanismo de recompensa e a dormência de parte do cérebro responsável pela racionalização podem regular o comportamento de agressores. O neurocientista Fernando Rossi, em entrevista para a série "Marcas", da TV Globo, explicou as alterações que acontecem no cérebro de um homem que é violento com mulheres (veja vídeo acima).
"No ato da agressão, ele hiperativa a amígdala cerebral, e isso é uma coisa já recorrente. E, na hora que ele hiperativa, torna o córtex pré-frontal, que julga, que administra, que controla os impulsos, menos ativo. Aí prevalece, de fato, as ações emocionais, os impulsos emocionais", disse Fernando Rossi.
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A visão da neurociência para o funcionamento do cérebro do agressor não tem intuito de justificar a violência. Porém, é uma forma de mapear padrões neurais e identificar que pontos devem ser modificados para quebrar ciclos (entenda mais abaixo).
O cérebro não é o condicionante exclusivo para o comportamento violento de homens. As relações sociais e a forma como os agressores foram socializados, desde criança, também interferem nas suas ações como adultos. O cenário machista, que reforça comportamentos agressivos, é uma influência importante.
"O fato de o cérebro funcionar dessa forma não significa que isso seja uma justificativa para tal ação. Tudo começa antes do cérebro, começa no pensamento, no trabalho do sentimento, que isso vem desde a infância, se construindo. E o cérebro apenas vai decodificar aquilo e mandar os seus comandos", contou o neurocientista.
Cérebro do agressor
Amígdala cerebral fica superativada no cérebro de agressores
Reprodução/TV Globo
O cérebro é dividido em partes, e a ativação ou desativação delas reflete no comportamento do indivíduo. Existem duas áreas que influenciam diretamente nos mecanismos de defesa, ataque e fuga, que são a amígdala cerebral e o córtex pré-frontal.
"A amígdala cerebral é um centro de defesa do nosso organismo. Ela existe para nos defender dos perigos reais. Mas, para o cérebro, não existe real e imaginário, para ele tudo é real. Então, na hora em que eu acho que estou sendo desafiado, essa amígdala se ativa", explicou Fernando Rossi.
Essa parte é responsável pela parte mais emocional, do impulso. Quando ela está hiperativada, acaba "adormecendo" outras áreas. Tal combinação acontece o tempo todo no cérebro e coordena nossas ações. O problema é quando ocorre o desbalanceamento e uma área sempre fica mais ativa que outra.
"Se o córtex pré-frontal não for trabalhado ao longo da vida, ele se retorna frágil, então o mais forte vence. A amígdala mais forte vai vencer esse córtex pré-frontal, que obviamente a função dele é racionalizar e, junto com o córtex cingulado anterior, administrar as reações dessa amígdala", pontuou o especialista.
O cérebro do agressor, ao perceber uma situação hostil, libera um sinal para agir, seja enfrentando ou fugindo. A escolha entre as duas opções se baseia, também, na forma como a pessoa aprendeu ao longo da vida. Se a agressão foi endossada ou vivenciada constantemente, ela se torna uma opção.
Contexto social do agressor
Neurocientista Fernando Rossi pesquisa sobre o cérebro de agressores
Reprodução/TV Globo
"Pesquisas mostram que o agressor vem de uma infância conturbada, uma infância onde ele tenha sofrido possíveis abusos, ou uma infância que foi cercada de violência. Então ele começa a vivenciar isso como uma verdade na vida dele. O cérebro começa a decodificar aquilo como uma realidade da vida cotidiana dele, a agressão [...] A pessoa que vive aplicando a agressividade porque sofreu muita agressividade, ele vai entender que a agressividade faz parte da vida dele e é importante para ele", afirmou o neurocientista.
A convivência em cenários violentos é só um dos pontos que abrem portas para comportamentos agressivos. Ao ter atitudes violentas validadas pela sociedade, a sensação de prazer que o agressor sente – com liberação do hormônio dopamina – ajuda a mantê-lo no ciclo de violência.
"Se eu sou um agressor e tenho ideias machistas, na hora em que eu agrido aquela mulher e justifico para um grupo de conhecidos e algum deles dá o aval, vai reforçando esse prazer, e aí libera a dopamina. Isso, com o tempo, vai se tornando algo automático, ele não precisa mais racionalizar. As atitudes já são impulsivas no bater ou até no tirar a vida da vítima", diz o especialista.
Acolhimento
O ponto de partida para a mudança é a vontade, de acordo com Fernando Rossi. Ainda segundo o pesquisador, a busca por terapias que foquem no comportamento e nos padrões de alterações cerebrais, é um caminho para tratar tanto vítimas quanto agressores.
"A vontade é a condição sine qua non [indispensável] para qualquer mudança. Ingressar numa terapia, tanto o agressor como a vítima, porque a gente sempre pensa na vítima, mas o agressor também já foi vítima certamente, então ele precisa. Os dois precisam entrar numa terapia com vontade de melhorar. A terapia cognitivo-comportamental traz resultados interessantes", ressaltou.
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Durante a terapia que foca nesses traumas e padrões de comportamento, é possível reativar áreas do cérebro que foram silenciadas. "Nós fortalecemos o córtex pré-frontal ao ponto dele racionalizar com mais energia todos os eventos que ali acontecem. A gente vai ao mesmo tempo transformando a memória emocional. A memória emocional não se apaga, mas ela pode ser desativada", contou.
Falhas na ressocialização
Os casos de violência contra mulher são alarmantes em Pernambuco. Em 2025, o estado voltou a registrar um aumento nos registros de feminicídios. Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), 88 mulheres foram mortas em crimes relacionados à sua condição de gênero, o maior quantitativo de vítimas dos últimos oito anos.
O número representa um crescimento de 15,8% em relação a 2024. Porém, uma preocupação é que os homens presos por esse e outros crimes de violência contra mulher tendem a não receber uma ressocialização adequada.
"A punição deveria ser construtiva, reeducativa. Não existe a reeducação, não existe a preocupação. O agressor paga a pena, sai e ele volta com mais raiva ainda. Na maioria das vezes, não vou generalizar, mas ele volta a praticar agressões. As marcas ficaram no cérebro e não foram trabalhadas", comentou o neurocientista.
Atendimento para mulheres vítimas de violência
No Recife, mulheres vítimas de violência podem receber acolhimento, atendimento multidisciplinar e orientações de profissionais especializados nos seguintes locais:
Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas);
Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h);
Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz: Eduardo Campos (Alto Santa Terezinha), Ariano Suassuna (Cordeiro), Dom Hélder Câmara (Coque) e Paulo Freire (Ibura).
Além disso, existe um Plantão WhatsApp, com funcionamento 24 horas, no número (81) 99488-6138.
Saiba como denunciar
Em Pernambuco, as denúncias de violência contra mulher podem ser feitas através do telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados;
A Polícia Militar pode ser contatada pelo 190, quando o crime estiver acontecendo;
Também é possível, no Grande Recife, fazer denúncias pelo Disque-Denúncia da Polícia Civil, no número (81) 3421-9595;
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também pode ser acionado de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h, através de uma ligação gratuita para o número 0800.281.9455;
Outra opção é a Ouvidoria da Mulher de Pernambuco, que funciona pelo telefone 0800.281.8187;
Os endereços e telefones das Delegacias da Mulher podem ser consultados no site do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).
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